quinta-feira, 4 de agosto de 2022

O mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa

Um dos maiores desafios da Igreja do Senhor é alcançar unidade na fé. Esta unidade é essencial para que o povo de Deus seja bem sucedido no propósito de representar Cristo na Terra, da forma correta, pois Jesus falou que as pessoas reconheceriam Seus discípulos apenas quando estes se amassem uns aos outros. Veja só:

Nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros. (João 13:35)

Se não andarmos em amor – a Deus e aos irmãos –, não teremos a motivação correta para vivermos em unidade, pois, para tal, é necessário abrir mão de algumas de nossas vontades, a fim de andarmos em unidade de fé.

Além disso, a bênção de Deus só é derramada quando há união entre o Seu povo. Por exemplo, o Salmo 133 diz que é “bom e agradável” (diante de Deus) que os irmãos convivam em “união”. Esta mesma palavra foi traduzida como unidade na Bíblia do Rei Tiago (King James), neste mesmo versículo.

Isso nos ensina que viver em unidade não é algo opcional, mas fundamental para a Igreja atingir seus propósitos. De fato, quando há divisões e contendas entre os irmãos, o nosso inimigo, o diabo, encontrará lugar para promover todo tipo de obra maligna.


Portar-se dignamente do evangelho

Há alguns anos, uma colega de trabalho visitou, com o seu marido, a Tchecoslováquia. Já tarde da noite, quando voltavam de um restaurante rumo ao hotel onde estavam hospedados, eles resolveram atravessar a rua, na faixa de pedestres, quando o sinal estava vermelho para eles (e verde para os carros). Eles julgaram que não haveria problemas, porque não havia trânsito de carros naquele exato momento. Se estivessem no Brasil, isso não teria dado problema algum, mas não estavam... 

Pouco tempo após terem cruzado a faixa de pedestres, um carro da polícia local os alcançou e os policiais os abordaram. Isso os deixou aterrorizados, pois os policiais rapidamente saíram da viatura e questionaram, em tcheco, porque eles haviam cruzado a faixa, estando o sinal vermelho para pedestres.

Bastante assustados, eles tentaram responder, em inglês, pois não falavam tcheco, explicando que eram estrangeiros e não sabiam que deveriam ter aguardado o sinal ficar verde para os pedestres, mesmo quando não havia tráfego de veículos. Por muito pouco, escaparam de ser presos. Mostraram os passaportes e vistos e, após terem sido repreendidos pelos policiais, foram liberados.

Quando se está em outro país, é necessário andar de forma “digna”, ou seja, de acordo com as leis e cultura daquele país. Se você estiver no exterior e tentar agir como se estivesse no Brasil, poderá ter problemas bem sérios.

Pois bem, quando aceitamos Cristo como nosso Senhor, nós passamos a fazer parte de um outro país, mais especificamente, de um reino: o Reino de Deus. Este Reino, assim como qualquer país do mundo, possui leis e cultura característicos. Vejamos o que o apóstolo Paulo orienta com relação a isso:

Somente deveis portar-vos dignamente conforme o evangelho de Cristo, para que, quer vá e vos veja, quer esteja ausente, ouça acerca de vós que estais num mesmo espírito, combatendo juntamente com o mesmo ânimo pela fé do evangelho. (Filipenses 1:27)

O termo aqui traduzido por "portar-se", originalmente, é o verbo grego πολιτεύομαι (politeúomai), que vem da palavra πολίτης (polítes), que quer dizer "cidadão". As duas palavras têm origem na palavra grega πόλις (pólis), que quer dizer "cidade".

Literalmente, então, este verbo "portar-se" quer dizer "ser/agir como um cidadão". Portanto, as Escrituras estão nos ensinando como devemos agir dignamente enquanto cidadãos do Reino de Deus. Assim como ocorreu com aquela minha colega de trabalho, que, estando em outro país, agiu como se estivesse no Brasil, e sofreu consequências, assim também o povo de Deus sofre muito, por não agirem de forma digna da cidadania que receberam no Reino.


Unidade: cultura do Reino

A cultura da unidade é característica do Reino de Deus e, portanto, precisamos aprender a viver em unidade. Não podemos esperar que o Céu se adapte a nós, mas nós é que precisamos nos adequar ao Reino, de forma a nos portarmos (como cidadãos) de forma digna.

Continuando a nossa meditação no verso citado anteriormente – Filipenses 1:27 –, nós perceberemos que precisamos estar "num mesmo espírito". Mas o que isso significa?

Para entendermos a importância da unidade, precisamos entender o que acontece quando somos salvos.

Ora, no momento da nossa conversão, ocorre uma ação sobrenatural, pois somos inseridos em Cristo, pelo Pai, através do Espírito Santo. Agora formamos uma unidade, chamada, na Bíblia, de o "Corpo de Cristo", que é a Igreja. Nos tornamos membros uns dos outros. Veja só:

Assim nós, que somos muitos, somos um só corpo em Cristo, mas individualmente somos membros uns dos outros. (Romanos 12:5)

Por isso deixai a mentira, e falai a verdade cada um com o seu próximo; porque somos membros uns dos outros. (Efésios 4:25)

Para que não haja divisão no corpo, mas antes tenham os membros igual cuidado uns dos outros. (1 Coríntios 12:25)

Pois bem, estes são apenas alguns versículos que tratam da unidade da igreja e que explicam que, sob a ótica de Deus, formamos um só corpo, ligados espiritualmente uns aos outros. Deus nos vê como uma grande família, onde Ele é o nosso Pai, e todos nós somos irmãos. Quando a família de Deus não opera em unidade está descaracterizando a sua imagem divina, recebida de Cristo.

Estar em um só espírito significa agir com base nessa realidade espiritual, onde estamos ligados, em espírito, uns com os outros, formando um único corpo.


Quebrando a unidade

Existem alguns inimigos da unidade. Sentimentos como inveja e competição são alguns dos seus destruidores. Em algumas traduções mais eruditas da Bíblia, encontramos palavras mais difíceis, tais como: emulação (incitação, competição), porfia (disputa, contenda), etc. Em todos os casos, existe um sentimento faccioso, que impulsiona o indivíduo à quebra da unidade, provocando divisão no Corpo de Cristo.

Sempre que ocorre essa quebra de unidade, abre-se a brecha para que Satanás aja dentro da igreja. Veja o que alerta Tiago em sua epístola:

Mas, se tendes amarga inveja, e sentimento faccioso em vosso coração, não vos glorieis, nem mintais contra a verdade.
Essa não é a sabedoria que vem do alto, mas é terrena, animal e diabólica.
Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa.
(Tiago 3:14-16)

Muitos cristãos não reconhecem isso, mas quando dão lugar às divisões dentro do Corpo de Cristo, estão cedendo à inspiração demoníaca. A consequência será destruidora, porque onde Satanás consegue brecha para agir, ele trará todo o tipo de perturbação e obras malignas e perversas na vida das pessoas da congregação.

Alguns até dão desculpas para a sua carnalidade, falando coisas do tipo "sou assim desde criança", "é o meu temperamento", "minha família é assim", etc. Ora, não importa qual seja a desculpa dada, pois a Palavra de Deus é a Verdade, e nada podemos contra ela. Não é papel de um filho de Deus contradizer a Palavra do Senhor, seja qual for o argumento, mas sim se submeter a ela, ainda que isso custe a sua própria vida.


Como manter a unidade

No capítulo 2, da epístola aos filipenses, Deus nos dá as orientações sobre como podemos manter a unidade da igreja. Vejamos os versos:

Portanto, se há algum conforto em Cristo, se alguma consolação de amor, se alguma comunhão no Espírito, se alguns entranháveis afetos e compaixões,
Completai o meu gozo, para que sintais o mesmo, tendo o mesmo amor, o mesmo ânimo, sentindo uma mesma coisa.
Nada façais por contenda ou por vanglória, mas por humildade; cada um considere os outros superiores a si mesmo.
Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros.
De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus...
(Filipenses 2:1-5)

Antes de mais nada Deus, nos mostra, através do apóstolo Paulo, que Ele se alegra quando o Seu povo está operando em unidade e vencendo as divisões, pois quando Paulo fala que a igreja “completaria o seu gozo”, ele está aqui revelando o coração de Cristo. Ou seja, alegramos o coração de Deus quando andamos em unidade.

É muito importante entender que Deus ama a unidade e trabalha arduamente para mantê-la. Veja só o que está escrito em Provérbios: 

Estas seis coisas o Senhor odeia, e a sétima a sua alma abomina:
Olhos altivos, língua mentirosa, mãos que derramam sangue inocente,
O coração que maquina pensamentos perversos, pés que se apressam a correr para o mal,
A testemunha falsa que profere mentiras, e o que semeia contendas entre irmãos
(Provérbios 6:16-19)

Assim sendo, haverá um juízo sobre todo aquele que semeia discórdia entre os irmãos, ou seja, a ira divina virá sobre aqueles que promovem a quebra da unidade do corpo de Cristo, tendo em vista que é algo que Deus abomina.


Movidos por humildade 

Logo depois de falar estas coisas, o Espírito Santo nos orienta a nada a fazer movidos por contenda ou vanglória, mas por humildade.

Para sermos movidos por humildade, precisamos entender que as nossas vidas foram resgatadas de uma vã maneira de viver, com o fim de darmos louvor e glória a Deus, assim como está escrito em Filipenses 1:11. Tudo o que somos, falamos, fazemos precisa exaltar a Cristo e a Deus, caso contrário será em vão.

Imagine alguém que passa o mês trabalhando arduamente, e quando vai receber o seu salário, ao final do mês, é assaltado e tem todo o dinheiro roubado. Os sentimentos de frustração e tristeza, além da preocupação com suas contas, certamente vai encher seu coração, pois tal pessoa terá a sensação que trabalhou tanto, porém em vão.

Da mesma maneira, se sua vida não dá honra a Deus, tudo o que você faz será em vão. Assim, é fundamental ter uma atitude de humildade, principalmente no trato com as pessoas. A orientação do apóstolo é que “cada um considere os outros superiores a si mesmo”.

Quando você vai tratar com um superior hierárquico, geralmente é bem mais cuidadoso com as palavras e atitudes que terá, pois está ciente de que poderá sofrer prejuízo, caso o superior se sinta ofendido. Desta forma, devemos considerar nossos irmãos como se fossem "superiores hierárquicos", de forma a lembrarmos de tratar a todos com amor e respeito, a fim de preservar a unidade da família de Deus.


Cuidar dos outros

Um outro grande inimigo da unidade é o egoísmo (ou egocentrismo). A palavra “ego” tem origem no grego, pois significa o pronome “eu”. Egoísmo é a “atitude daquele que busca o próprio interesse, acima dos interesses dos demais”

Quando nós colocamos os nossos próprios interesses acima dos interesses dos outros, estamos agindo de forma egoísta e, fatalmente, isso se refletirá na unidade do corpo. A vida em família ou em comunidade requer uma atitude altruísta, que é o contrário da atitude egoísta. Altruísmo pode ser definido como “amor espontâneo pelo próximo” (Dicionário Michaelis). 

“Não atente cada um para o que é propriamente seu, mas cada qual também para o que é dos outros” mostra que nossa vida não deve ser vivida apenas para nosso próprio deleite, mas para que a coletividade também desfrute do mesmo bem que Deus tem para todos.

Lembremos que o maior mandamento da Lei não é apenas “amar a Deus sobre todas as coisas”, mas existe o segundo maior mandamento de “amar ao próximo como a si mesmo”, e que estes dois estão conectados, assim como Cristo explicou em Mateus 22:39. Inclusive, quando refletimos sobre estes dois maiores mandamentos da Lei, perceberemos que Jesus os colocou em pé de igualdade, apenas observando que o primeiro é o amor a Deus, mas que logo em seguida, viria o amor ao nosso próximo.

E Jesus disse-lhe: Amarás o Senhor teu Deus de todo o teu coração, e de toda a tua alma, e de todo o teu pensamento. Este é o primeiro e grande mandamento.
E o segundo, semelhante a este, é: Amarás o teu próximo como a ti mesmo.
Destes dois mandamentos dependem toda a lei e os profetas.
(Mateus 22:37-40)

Observe que destes dois mandamentos (não apenas do primeiro) dependem TODA A LEI E OS PROFETAS. Não se consegue amar a Deus, deixando de amar ao nosso irmão. Não se consegue agradar a Deus se não atentarmos para o amor ao próximo.

Uma das características do amor é exatamente que ele “não busca os seus próprios interesses”, portanto a unidade da Igreja é baseada no amor e na busca pelos interesses dos outros. Obviamente, tudo isso precisa ser feito de acordo com a vontade santa de Deus. Não estamos falando aqui em agradar aos homens e seus desejos carnais.


Conclusão

Com o fim de mantermos a unidade na Igreja, é necessário empreendermos esforços no sentido de, humildemente, nos sujeitarmos uns aos outros em amor, considerando os outros como sendo superiores a nós mesmos, a fim de não quebrarmos a unidade. Lembre-se que você não é o centro do universo, que o mundo não gira em torno de você.

Existem coisas mais importantes do que os seus próprios desejos egoístas. Além disso, a bênção de Deus só se manifesta quando o Seu povo está em um só espírito e alma. A Igreja tem uma missão a cumprir, que é refletir a glória de Cristo, mostrando ao mundo as virtudes de Deus. Não temos condições de cumprir este importante chamado se vivermos em contendas e divisões.

Muitas vezes, é preferível calar-se e “engolir muitos sapos”, a fim de evitar ferir e magoar os irmãos. O andar em unidade requer sacrifício, mas traz grande recompensa.

Que a graça do nosso Senhor e Rei Jesus seja com a sua vida. Amém.

Pr. Wendell Costa

quarta-feira, 27 de abril de 2022

O mesmo sentimento que houve em Cristo

Na cerimônia conhecida como "lava pés", Jesus faz um serviço
que era atribuído ao escravo menos importante de uma casa.


De sorte que haja em vós o mesmo sentimento que houve também em Cristo Jesus, q
ue, sendo em forma de Deus, não teve por usurpação ser igual a Deus, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, fazendo-se semelhante aos homens; e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, sendo obediente até à morte, e morte de cruz. (Filipenses 2:5-8)

É impressionante o mandamento que Deus nos dá em Filipenses 2:5, ao nos orientar que devemos ter "o mesmo sentimento que houve em Jesus Cristo". Mesmo sendo Filho, Cristo se faz um servo, a fim de nos salvar por meio do Seu sacrifício na cruz.

Sendo dono de tudo, se torna como uma de Suas criaturas e passa por todo o sofrimento de estar neste mundo caído, sendo criticado, resistido, perseguido, traído, cuspido, torturado, humilhado e morto, de forma maligna e covarde. Mas tudo isso Ele passou para que eu e você pudéssemos ter o que Ele tinha por natureza: a filiação divina.

Contudo, ter este mesmo sentimento, que movia Jesus, não é algo que simplesmente surge automaticamente em nossos corações. É algo que precisa ser desenvolvido! De fato, tendo em vista que somos novas criaturas, nós já temos a natureza divina em espírito, apesar disso, precisaremos desenvolver esta natureza em nossas almas.


A vida de um escravo

Sendo filho, Jesus toma a "forma de servo", a fim de assumir a culpa do homem. Mas, o que, realmente, significa ser um "servo"? 

Bem, a palavra aqui traduzida como "servo" é a conhecida palavra grega δοῦλος (dulos), que significa escravo. Ora, no mundo de hoje, em especial aqui no Brasil, nós não sabemos como é a vida de um escravo, pois a escravidão já foi banida da sociedade atual, sendo considerado um crime manter alguém na condição de escravo. Nossos antepassados, contudo, sabiam muito bem como era a vida de um escravo.

A escravidão fez parte da história humana durante muito tempo, por causa do pecado que entrou no mundo. Ao longo da história, nações vencidas em guerras eram escravizadas e, gradativamente, a escravidão tornou-se a principal forma de se obter trabalhadores para os serviços em geral, principalmente aquelas tarefas mais duras.

Além da palavra δοῦλος (dulos) – escravo, existem outras palavras derivadas que são muito usadas nas Escrituras em grego:

  • δουλεία (duléia) - escravidão
  • δουλεύω (duleúo) - servir (como um escravo)

Estas palavras são bastante comuns nos textos do Novo Testamento e da Septuaginta (Velho Testamento grego). Vejamos algumas passagens:

Ninguém pode servir [δουλεύω-duleúo] a dois senhores; porque ou há de odiar um e amar o outro, ou se dedicará a um e desprezará o outro. Não podeis servir [δουλεύω-duleúo] a Deus e a Mamom. (Mateus 6:24)

Não é esta a palavra que te falamos no Egito, dizendo: Deixa-nos, que sirvamos [δουλεύω-duleúo] aos egípcios? Pois que melhor nos fora servir [δουλεύω-duleúo] aos egípcios, do que morrermos no deserto. (Êxodo 14:12)

O que se entende por alegoria; porque estas são as duas alianças; uma, do monte Sinai, gerando filhos para a servidão [δουλεία-duléia], que é Agar. (Gálatas 4:24)

Pois bem, acredito que as características da vida de um escravo mudaram ao longo das eras, mas como o livro de Filipenses foi escrito no auge do Império Romano, vamos focar na forma como acontecia a escravidão naquele período.

A vida de um escravo não era nada fácil, pois eles tinham muitos deveres, mas poucos direitos, se é que tinham algum. Vejamos algumas características: 

  • O escravo era considerado propriedade do seu senhor. Portanto, fazia parte de seus bens, não era alguém que tivesse vontade própria.
  • Não havia direito à aposentadoria, o escravo trabalhava, literalmente, até morrer. Por causa disso, a vida de um escravo era curta, devido ao muito trabalho e pouco descanso.
  • Os escravos atuavam em praticamente todas as áreas da sociedade romana, sendo que os mais valorizados eram os gladiadores. O local mais difícil para trabalhar como escravo eram as minas romanas. Mas os escravos que trabalhavam nas plantações também tinham um trabalho muito duro.
  • As mulheres escravas geralmente trabalhavam nas tarefas domésticas, mas havia algumas mais habilidosas que trabalhavam como maquiadoras e cabeleireiras. Havia também as que trabalhavam em pequenas fábricas, fazendo artesanato e joias.
  • As crianças eram o tipo de escravo mais valorizado, tendo em vista que tinham toda uma vida pela frente, para trabalharem para seus senhores.
  • Qualquer desobediência de um escravo poderia lhe render graves surras. Se um escravo matasse o seu senhor, normalmente todos os escravos da casa morreriam como punição.
  • Existiam bons senhores, que tratavam seus escravos com mais dignidade, mas o contrário também era comum. Se o escravo tivesse a sorte de ter um bom senhor, este poderia até mesmo libertar esse escravo no futuro, algo que, de fato, acontecia.
  • Na cidade de Pompeia, por exemplo, uma casa possuía, em média, cerca de 7 escravos. Chegou a um ponto em que, no Império Romano, 1 em cada 5 habitantes era escravo. Li, certa vez, em um livro de grego, que na cidade de Atenas (na Grécia antiga),  houve um momento em que,  para cada cidadão livre, havia 2 escravos.
  • Nesse período, possuir escravos era algo tão comum como  ter empregados, nos dias de hoje. Portanto, não era algo considerado "injusto" pela sociedade da época. Quanto mais escravos alguém possuía, mais status tinha na sociedade.
Quando lemos acerca da vida de um escravo, chegamos ao entendimento de que se resumia a uma palavra: trabalho! A vida de um escravo tinha apenas o propósito de trabalhar. Ninguém comprava um escravo e o mantinha para que este pudesse se divertir ou ficar ocioso, mas para que o escravo rendesse ao seu senhor bastante trabalho.

Assim, é importante compreendermos que Jesus se tornou um servo, ou seja, um escravo, a fim de trabalhar para cumprir a obra do Pai. Podemos resumir esta obra da seguinte forma: Cristo se torna um homem, vive uma vida humana normal, depois começa a evangelizar e preparar a igreja inicial, Ele se oferece em sacrifício pelos nossos pecados e ressuscita, a fim de nos justificar. 

Após isso, Jesus se assenta à direita do trono da majestade nas alturas e vive para interceder, ou seja, Jesus não está ocioso no trono, Ele continua trabalhando por nós.
Bem como o Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir, e para dar a sua vida em resgate de muitos. (Mateus 20:28)
Desta vez, a palavra original grega usada no verso acima não é a duleo, anteriormente estudada, mas 
uma outra palavra bem conhecida que é:
  • διακονέω (diakoneo) - servir, originada da palavra diaconia (serviço). De onde tiramos a tão conhecida palavra "diácono", que são aqueles que servem na igreja nos serviços gerais.
É muito interessante observar que o propósito da vida do próprio Cristo era servir! Jesus serviu a Deus Pai servindo aos homens, ensinando-os e oferecendo-se a Si mesmo como um sacrifício. Este foi, certamente, o trabalho mais importante que já foi atribuído alguém. Somos extremamente gratos a Jesus por ter nos servido daquela maneira, morrendo em nosso lugar.

Agora, nós, que somos salvos por Cristo, devemos também dar as nossas vidas em oferta a Deus Pai, para servi-lo da mesma maneira que Jesus fez. Nossas vidas foram vivificadas por Deus, para que pudéssemos ser instrumentos dele para vivificar outros, que hoje estão mortos em seus pecados.
Vós sois a luz do mundo; não se pode esconder uma cidade edificada sobre um monte;
Nem se acende a candeia e se coloca debaixo do alqueire, mas no velador, e dá luz a todos que estão na casa. (Mateus 5:14,15)
Sabemos que a Palavra de Deus é uma luz imensa, contudo, neste mundo, esta luz precisa brilhar através das nossas vidas, para que as pessoas vejam as nossas obras justas e possam se arrepender de seus pecados, vindo até Cristo, para serem salvas.

Em uma sociedade onde todos buscam os seus direitos, mas não se preocupam muito com os seus deveres, a palavra dita pelo apóstolo Paulo vai na contramão dessa mentalidade egoísta, mostrando qual deve ser a nossa expectativa e sentimento enquanto estamos aqui neste mundo:

Mas de nada faço questão, nem tenho a minha vida por preciosa, contanto que cumpra com alegria a minha carreira, e o ministério que recebi do Senhor Jesus, para dar testemunho do evangelho da graça de Deus. (Atos 20:24)

Este é o verdadeiro sentimento de um servo! O apóstolo sabia muito bem o que lhe esperava adiante, quando fosse para Jerusalém, mas, categoricamente, afirma que não fazia questão de nada. Como isso é diferente da mentalidade atual!

Vivemos hoje no império do "eu", onde tudo o que importa é a mim mesmo, minha imagem, meus bens, minha família etc. "Porque todos buscam o que é seu, e não o que é de Cristo Jesus." (Filipenses 2:21). Mas vamos, agora, aprender que, no Reino de Deus, as prioridades são diferentes.


A ordem correta no reino de Deus

As leis que regem o reino de Deus existem antes mesmo dos reinos dos homens, são leis eternas, imutáveis. Assim, para um cidadão do Reino de Deus, é necessário que ele aprenda como funcionam essas leis. Algo muito importante que Jesus ensinou foi sobre como funciona a questão da autoridade dentro do Reino de Deus.

O caminho para que você suba no Reino é praticamente o inverso do que ocorre no mundo. Aquele que quer ser o maior no reino dos céus deve ser o menor aqui na terra e servo de todos (Marcos 10:44).

É importante esclarecer, contudo, que não servimos às pessoas de uma forma aleatória, mas sim orientada e determinada pelo Senhor Jesus. Alguém pode achar que ser servo de todos é sempre atender aos desejos das pessoas, o que não é verdade. Jesus não obedecia às pessoas embora estivesse aqui para servir.

Sim, nós servimos as pessoas, mas tudo conforme a vontade de Deus. Cada um de nós deve atender ao seu chamado, chamado este que está ligado à Grande Comissão deixada por Cristo. Como servos, precisamos atender ao chamado de Deus para servir aos homens, mas tudo de acordo com a vontade d'Ele.

O serviço para o qual somos chamados não é para nossa própria glória e exaltação, mas para a salvação dos homens e para glória e louvor de Deus. É importante entendermos que, mesmo quando servirmos bem ao Senhor, isso não nos dá garantia alguma que as pessoas vão nos dar tapinhas nas costas e nos elogiar. Pelo contrário, pois a Palavra de Deus nos adverte que os que vivem piedosamente sofrem perseguição (2 Timóteo 3:12), mas que você deve servir procurando agradar unicamente aquele que lhe chamou.

Um dos principais motivos pelos quais o apóstolo Paulo se sentia livre, mesmo estando preso, era que ele não tinha expectativa das pessoas, mas tinha consciência de que era um escravo de Jesus Cristo e procurava agradar unicamente ao seu Senhor.


Nossa recompensa vem do nosso Senhor

Como mostrado anteriormente, os escravos que tinham bons senhores eram beneficiados, pois estes poderiam até mesmo libertar seus escravos, depois de algum tempo. Nós, como servos de Jesus Cristo, podemos dizer que temos o melhor senhor de todos! Ele não apenas é nosso Senhor, mas também é nosso irmão e se tornou servo, assim como nós precisamos ser. Jesus é o nosso maior exemplo de alguém que se torna um escravo, por amor a Deus e aos homens.

Pois, assim como Cristo recebeu uma recompensa eterna do Pai, também nós teremos nosso galardão eterno, prometido por Deus, por nossos bons préstimos para a obra de salvação.

Um escravo deve olhar para o seu senhor como fonte de obediência e também de recompensa. Deus é recompensador daqueles que o buscam e, portanto, nós devemos ter a certeza de que Ele há de nos recompensar pelas nossas obras e por nosso serviço aos santos.

Porque Deus não é injusto para se esquecer da vossa obra, e do trabalho do amor que para com o seu nome mostrastes, enquanto servistes aos santos; e ainda servis. (Hebreus 6:10)

Servir a Deus significa servir aos homens, em especial servir aos santos do Senhor. Jesus nos ensinou que até um copo de água, servido a algum discípulo, terá o seu galardão! (Mateus 10:42)

Pr. Wendell Costa

segunda-feira, 21 de março de 2022

O Desejo de Partir e Estar com Cristo


Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor.
(Filipenses 1:23)

Estando preso e com grande probabilidade de ser morto ao chegar em Roma, o apóstolo Paulo faz uma impressionante afirmação em sua carta aos Filipenses: o seu principal desejo era, de fato, morrer!

Não, não é que Paulo amasse a morte – ou que fosse suicida ou algo do gênero –, mas, sim, que ele sabia que a morte física seria seu "passaporte" para o Paraíso, algo que, com toda certeza, seria bem melhor que a vida neste mundo caído.

Esta frase do apóstolo nos confronta com uma realidade bem forte hoje, que é a falta da convicção da vida eterna, convicção esta que muitos cristãos ainda não têm.

Cristo veio para nos dar vida eterna 

Uma das principais coisas que o cristão precisa ter é a certeza da vida eterna, pois foi exatamente para isto que Cristo veio ao mundo:

E esta é a promessa que ele nos fez: a vida eterna. (1 João 2:25)

Aquele que crê no Filho tem a vida eterna, mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece. (João 3:36)

Observe que, neste último versículo, a Escritura afirma que, quem tem Cristo, já tem, no tempo presente, a vida eterna. A vida eterna não é algo que teremos apenas no futuro, mas é algo que temos no presente, por estarmos espiritualmente ligados a Cristo.

Para compreendermos melhor essa questão, é fundamental entendermos que o ser humano é um ser espiritual e que espíritos não morrem, pelo menos não no sentido que conhecemos.


Espírito, alma e corpo

Deus nos criou como seres capazes de interagir com o mundo espiritual e material ao mesmo tempo. Para isso, fomos dotados de uma parte espiritual (o espírito, que pertence ao mundo espiritual), uma parte material (o corpo, que pertence ao mundo material), ambos conectados por uma parte mental, a qual conhecemos como "alma", que permite que, através do conhecimento, possamos interagir com estes dois mundos: o espiritual e o físico.


Um estudo mais aprofundado sobre este tema não caberia nesta postagem, mas aqui, neste mesmo blog, temos um estudo completo sobre a temática de "espírito, alma e corpo". Além disso, temos também, no canal do Águios, um estudo completo em vídeo. Colocarei aqui os links respectivos:

Texto: Espírito, alma e corpo - parte 1: Os Dois Mundos

Playlist YouTube sobre "espírito, alma e corpo"

Agora, vamos entender um pouco sobre essa questão da composição do ser humano, sob a ótica bíblica. O texto base para o entendimento desta temática encontra-se na epístola aos Tessalonicenses:

E o mesmo Deus de paz vos santifique em tudo; e todo o vosso espírito, e alma, e corpo sejam plenamente conservados irrepreensíveis para a vinda de nosso Senhor Jesus Cristo. (1 Tessalonicenses 5:23)

Através desse texto, o apóstolo Paulo declara um mandamento e uma benção sobre a igreja, para que a plenitude de nosso ser seja santificada, e, então, ele cita as três partes do ser humano.


A queda do homem

O livro de Gênesis, em seus capítulos 2 e 3, relata a advertência do Senhor Deus sobre a árvore do conhecimento do bem e do mal, a qual o homem não deveria comer. Caso este escolhesse comer dessa árvore de conhecimento, naquele mesmo dia, morreria:

E ordenou o Senhor Deus ao homem, dizendo: De toda a árvore do jardim comerás livremente, mas da árvore do conhecimento do bem e do mal, dela não comerás; porque no dia em que dela comeres, certamente morrerás. (Gênesis 2:16,17)

No entanto, quando a mulher foi tentada, a serpente afirmou que ela "certamente não morreria" (Gênesis 3:4). E, de fato, ao provar do fruto da árvore, percebemos que o casal não morreu. Estaria Deus mentindo? Será que a serpente falou a verdade, enquanto que o que Deus falou era apenas figurado?

A resposta desta questão está no fato de que o homem é composto de uma parte espiritual, a qual Deus se referia quando disse que o homem "morreria" no mesmo dia em que desobedecesse. Ocorre que, no mundo espiritual, morte não significa o fim da existência, mas, na verdade, uma separação eterna de Deus.

Veja, por exemplo, o caso dos anjos que pecaram (2 Pedro 2:4): Eles foram separados de Deus eternamente, mas continuaram existindo e agindo nos homens. O que também nos mostra que mesmo quando um espírito está separado de Deus, ele tem consciência e consegue agir, dentro de certos limites.

Ora, o espírito humano é igual a qualquer outro espírito, ou seja, possui as mesmas características que os demais espíritos possuem. Não há base bíblica para acreditarmos que o espírito humano é diferente dos outros, ou seja, que ele findaria, ao ser separado de Deus. De fato, se o espírito humano findasse ao pecar, Adão e Eva teriam cessado de existir quando desobedeceram.

A morte de corpo não implica na cessação do espírito, pois são partes separadas. Um corpo pode existir sem um espírito e vice versa.

A salvação é primeiramente do espírito

Quando Cristo foi indagado pelo fariseu Nicodemos acerca do novo nascimento, Jesus respondeu o seguinte:

Jesus respondeu: Na verdade, na verdade te digo que aquele que não nascer da água e do Espírito, não pode entrar no reino de Deus.

O que é nascido da carne é carne, e o que é nascido do Espírito é espírito.

Não te maravilhes de te ter dito: Necessário vos é nascer de novo. (João 3:5-7)

Carne não pode gerar espírito (embora o contrário não seja verdade, já que Deus é espírito e criou tudo). Portanto, ao falar da salvação, Jesus disse que era necessário que houvesse um novo nascimento, mas que seria com relação ao espírito e não à carne.

Jesus também jogou na cara de Nicodemos que ele era um mestre em Israel, mas não estava entendendo sobre o que Jesus falava. Ora, a promessa de dar ao povo um novo espírito estava predita nos profetas, no livro de Ezequiel:

E dar-vos-ei um coração novo, e porei dentro de vós um espírito novo; e tirarei da vossa carne o coração de pedra, e vos darei um coração de carne.

E porei dentro de vós o meu Espírito, e farei que andeis nos meus estatutos, e guardeis os meus juízos, e os observeis. (Ezequiel 36:26,27)

Portanto, a nossa salvação é feita, inicialmente, no âmbito espiritual, onde recebemos um novo espírito, nos tornando novas criaturas, conforme dito em 2 Coríntios 5:17.


Nosso Destino: o Paraíso

Quando estava prestes a render o seu espírito, Jesus falou a um dos ladrões que estavam sendo crucificados ao Seu lado:

E disse-lhe Jesus: Em verdade te digo que hoje estarás comigo no Paraíso. (Lucas 23:43)

A palavra Paraíso, no texto original grego, é παράδεισος (parádeisos), que é o mesmo termo utilizado pela versão grega do Velho Testamento – a Septuaginta – para se referir ao jardim do Éden, em Gênesis 2:8. Antes do pecado, o homem desfrutava da eternidade, da paz, da Presença do Senhor, "sem pecado e sem juízo".

O Paraíso se refere ao próprio Reino de Deus: um lugar eterno de perfeição, beleza, santidade, justiça, etc. Um lugar onde não há morte, nem pranto, nem clamor, nem dor.

O próprio apóstolo Paulo experimentou um pouco desse Paraíso, experiência esta que ele cita em 2 Coríntios:

E sei que o tal homem (se no corpo, se fora do corpo, não sei; Deus o sabe) foi arrebatado ao paraíso; e ouviu palavras inefáveis, que ao homem não é lícito falar. (2 Coríntios 12:3,4)

Veja que ele ouviu palavras "inefáveis" (que não se podem expressar), palavras estas que não foram concedidas ao homem falar, talvez até devido às nossas limitações físicas. Se até as palavras não conseguimos expressar, imagine a beleza, esplendor e majestade desse lugar maravilhoso.

Não é de se admirar que Paulo desejasse ir para lá e, por isso, tinha "o desejo de partir e estar com Cristo", pois isso seria ainda muito melhor!

Glórias a Deus para todo o sempre! Porque Ele não nos deixa aqui na Terra sem esperança, mas provê a certeza de que até mesmo a morte física não tem poder de nos destruir. A morte física é apenas uma separação temporária entre o espírito/alma e o corpo. Com a segunda vinda de Jesus, seremos ressuscitados e ganharemos novos corpos gloriosos e eternos.

Saber que permanecemos vivos e conscientes, mesmo com a morte do corpo, é uma das coisas essenciais para que desfrutemos dessa mesma liberdade que o "apóstolo prisioneiro" Paulo nos comunica. Se você não tem certeza disso, fatalmente terá medo da morte e não poderá desfrutar de plena paz diante do mundo mau em que vivemos.

Portanto, se você já recebeu Jesus como o seu Salvador, saiba que você já tem a vida eterna em seu novo espírito. A morte física não pode acabar com a sua existência. Tenha esta certeza e viva em paz!

Onde está, ó morte, o teu aguilhão? Onde está, ó inferno, a tua vitória? (1 Coríntios 15:55)

Que a paz do Senhor Jesus Cristo seja com o seu espírito. Amém.


Wendell Costa


Imagens por Gerd Altmann em Pixabay

sábado, 26 de fevereiro de 2022

Para Proveito do Evangelho



E quero, irmãos, que saibais que as coisas que me aconteceram contribuíram para maior proveito do evangelho; De maneira que as minhas prisões em Cristo foram manifestas por toda a guarda pretoriana, e por todos os demais lugares; E muitos dos irmãos no Senhor, tomando ânimo com as minhas prisões, ousam falar a palavra mais confiadamente, sem temor.
(Filipenses 1:12-14)

Qual é o propósito da sua vida, meu caro leitor?

No último texto desta série sobre Filipenses, eu falei sobre a importância de termos um sentimento de "missão a cumprir", neste mundo. Isso nos permitirá focar em nosso chamado, a despeito das batalhas que enfrentaremos.

Nos versos acima, vemos que o grande apóstolo Paulo perseguia um propósito, maior que si mesmo, que era o de pregar o evangelho, ou melhor, de o evangelho ser pregado, tanto por ele mesmo como por outros.

Isso mostra que Paulo enxergava sua missão como sendo mais importante que ele próprio. Esse sentimento precisa estar em nossos corações, a fim de que possamos nos mover em direção a esse alvo, sem que sejamos barrados pelas tribulações e perseguições que enfrentaremos.


Olhando Para Jesus

Cristo veio ao mundo para salvar os perdidos. Este foi o grande propósito pelo qual o Pai O enviou. "Olhar para Jesus" significa que devemos tê-lo como nosso grande Exemplo e Motivação, na continuidade dessa mesma missão.

Jesus não veio ao mundo por causa de Si próprio, mas por causa do homem. Deus não precisava ser salvo, éramos nós que carecíamos de salvação, haja vista a condição pecaminosa e afastada de Deus que nós estávamos. Assim, Deus não precisava se tornar homem, contudo esta foi a única forma que o Senhor tinha de nos salvar, assumindo a culpa por nossos pecados, para levar o homem de volta para o Seu Reino.

No cumprimento dessa missão dada por Cristo, precisamos de um referencial e modelo para que possamos olhar para ele, buscando inspiração e força.

Portanto nós também, pois que estamos rodeados de uma tão grande nuvem de testemunhas, deixemos todo o embaraço, e o pecado que tão de perto nos rodeia, e corramos com paciência a carreira que nos está proposta, olhando para Jesus, autor e consumador da fé, o qual, pelo gozo que lhe estava proposto, suportou a cruz, desprezando a afronta, e assentou-se à destra do trono de Deus. (Hebreus 12:1,2)

Ora, há uma corrida a ser completada. Quem já correu corridas de longa distância sabe muito bem que exige bastante esforço! Mas a prática nos aperfeiçoa.

Costumo dizer que a carreira da nossa vida está mais para uma "maratona", pois é longa e, muitas vezes, cansativa. Se não tivermos uma boa motivação, não suportaremos. De fato, muitos cristãos, inclusive líderes da igreja, têm caído, durante esse percurso.

Olhar para Jesus é mais do que saber algo sobre Jesus, ou acreditar que Ele existiu e que é verdadeiro. Olhar para Jesus é ter n'Ele a sua fonte de sabedoria e poder, bem como inspiração, por Seu exemplo. É entender que a salvação do ser humano é mais importante do que você ter um carro do ano, ou você realizar aquele sonho de viajar para a Europa.


A Missão Confiada Por Deus À Igreja

Jesus nos deixou o exemplo, tomando a Sua cruz. Ele nos deixou a Sua Palavra e o Seu Espírito, a fim de que nós completemos a Sua obra. Temos uma missão a cumprir, a qual faremos n'Ele e com a Sua ajuda. Eis o motivo de chamarmos essa obra de "comissão": uma missão desempenhada com alguém.

E disse-lhes: Ide por todo o mundo, pregai o evangelho a toda criatura. (Marcos 16:15)

Portanto ide, fazei discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, e do Filho, e do Espírito Santo; Ensinando-os a guardar todas as coisas que eu vos tenho mandado; e eis que eu estou convosco todos os dias, até a consumação dos séculos. Amém. (Mateus 28:19,20)

A primeira parte da Grande Comissão é evangelizar o mundo. Esta árdua tarefa vem sendo desempenhada pela Igreja ao longo dos séculos, onde muitos deram as suas vidas em prol desse chamado.

No entanto, a despeito da possibilidade de morrer no corpo, devemos entender que a morte física não é o final da nossa história. Como enfatizei no texto anterior, para que desfrutemos de paz, neste mundo, é necessário termos a certeza da vida eterna, caso contrário, estaremos presos ao medo da morte e vamos acabar comprometendo o nosso chamado ou desistindo dele.

O apóstolo Paulo entendia muito bem a importância da evangelização e, por isso, estava disposto a se sacrificar por ela, sabedor de que a morte física não era o "fim da linha", mas apenas uma partida para estar com Cristo (Filipenses 1:23).

Paulo conseguiu se alegrar no fato de que até mesmo sua prisão estava sendo usada como elemento catalizador da Grande Comissão. Sua preocupação era que Cristo fosse pregado e não o seu próprio bem estar.


Cada um de nós tem uma missão

Assim como o apóstolo Paulo, como também o próprio Cristo, cada um de nós tem uma missão a ser cumprida neste mundo. Tal missão é o que conhecemos como o nosso chamado.

Esse chamado é anterior ao nosso nascimento, portanto algo que é anterior a nós mesmos, daí vemos a sua importância. Precisamos buscar em Deus o entendimento desse chamado através da oração, estudo da Palavra e do nosso envolvimento com a igreja local, no trabalho da congregação. Desta maneira, gradativamente, compreenderemos qual a área de atuação para a qual Deus nos chamou.

Quando nos tornarmos frutíferos no chamado, nossas vidas servirão de exemplo e motivação para vida de outros, desde que entendamos que o nosso chamado tem por fim último a propagação do evangelho de Jesus Cristo, por meio do qual muitos receberão a vida eterna e edificação em Cristo.

Infelizmente, no tempo atual, muitos que se dizem ministros do evangelho não têm esse mesmo alvo maior, mas agem focados em seus ministérios pessoais ou suas corporações, como se isso fosse mais importante do que o evangelho ser pregado e vidas serem salvas da morte eterna.

Lembre-se que a sua missão é maior que você.

Que a graça e a paz de Deus e do Senhor Jesus Cristo sejam com a sua vida. Amém.


Pr. Wendell Costa

sexta-feira, 7 de janeiro de 2022

O Viver é Cristo e o Morrer é Lucro


Porque para mim o viver é Cristo, e o morrer é ganho. (Filipenses 1:21)

Em meio à sua intensa vida apostólica, Paulo é preso em Jerusalém, acusado de pregar contra a Lei de Moisés. Então, enquanto ainda estava preso, ele escreve a epístola aos Filipenses. O crime de Paulo foi pregar o evangelho de Jesus Cristo, algo que, naquele momento, ainda não era crime pelas leis romanas.

Este grande apóstolo do Senhor descreve um pouco das aflições pelas quais passou, na sua segunda epístola aos Coríntios, capítulo 11. Nessa passagem bíblica, Paulo resume tudo o que sofreu em sua jornada, falando de açoites, prisões, naufrágios, etc. Em outra passagem das Escrituras (Gálatas 6:17), ele cita as marcas de Cristo, que estavam em seu corpo.

Isso tudo nos mostra que a vida de Paulo não era nada confortável, mas que foi uma vida bastante sofrida. Certamente ele também desfrutou de bons momentos, enquanto adorava a Deus e tinha comunhão com a igreja do Senhor, mas os seus sofrimentos por causa de Jesus ficam bem evidentes em seus textos.

Ora, como um homem que passou por tantos sofrimentos conseguia desfrutar de alegria e ainda orientar aos cristãos a se "regozijarem sempre"? (Filipenses 4:4)

Bem, o próprio Deus, através de Paulo, nos dá as chaves para uma vida vitoriosa neste mundo, de maneira que tenhamos condições de andar em paz e alegria, a despeito das circunstâncias pelas quais passamos.


MEU VIVER É CRISTO

A primeira chave é “vivermos Cristo” aqui neste mundo. Isso implica em alguns desdobramentos, a saber:

  1. Conhecer a própria salvação trazida por Deus em Cristo (“o que é ser salvo”; “salvo de quê?”).
  2. Conhecer o chamado específico que Deus tem para cada um de nós e procurar seguir tal chamado (“qual a minha missão no mundo?”)

Ora, conhecer a salvação plenamente não é algo sobre o qual podemos explorar em apenas uma postagem, por isso tecerei apenas alguns comentários sobre isso.

Afinal de contas, nós somos salvos de quê?

Bem, fomos salvos do pecado e de todas as suas consequências, o que inclui muita coisa. Toda a criação foi contaminada pelo pecado e sofre, hoje, com as suas consequências.

Perceba que todo o mal que existe neste mundo, tais como mentira e engano, roubo, doença, assassinato, fome, miséria, traição etc. são consequências diretas da entrada do pecado na terra. Assim sendo, a salvação foi preparada para nos livrar de tudo isso.

Mas a salvação foi feita por Deus em 3 etapas distintas. Na primeira etapa, um pecador se arrepende da sua maneira de viver e entrega a sua vida a Cristo, sendo salvo em espírito. Deus troca a sua velha natureza pecaminosa por uma nova natureza de santidade e justiça. Esta etapa ocorre no espírito humano.

A segunda etapa ocorre em nossa mente (a "alma", do grego "psyquê"), pois precisaremos reaprender a viver com base nessa nova natureza espiritual, recebida da parte de Deus, por meio de Cristo. Todo pecado que estava entranhado em nossa mente precisa ser removido, o que afetará nosso comportamento, nossos hábitos e o nosso caráter. Esse processo é conhecido como "santificação" e é fundamental para que possamos desfrutar da realidade do Reino de Deus, aqui na terra.

A terceira etapa da nossa salvação se cumprirá na volta de Jesus, quando Ele transformar os nossos corpos mortais em corpos eternos gloriosos. Mas mesmo antes disso, há a esperança da vida eterna para os que morreram no Senhor, assim como o próprio apóstolo Paulo afirmou na sua epístola aos Filipenses (capítulo 1, verso 23).

Todas estas coisas estão reveladas para nós, através das Escrituras Sagradas, iluminadas pelo Espírito Santo em nossos corações. Gradativamente, devemos voltar nossas mentes para Deus, através das verdades contidas na Palavra de Deus, o que irá mudar o curso da nossa vida, removendo o nosso foco da vida natural e pecaminosa para a vida eterna e santa.

O segundo desdobramento, para podermos viver Cristo na terra, é conhecermos o nosso chamado ministerial. Afinal, para que Deus nos chamou? Ou seja, qual o serviço que Ele tem para fazermos: a nossa missão neste mundo?

Isto é essencial para nos dar um sentimento de propósito nesta vida e nos ajudar a canalizar nossos recursos, para o cumprimento desse propósito. Alguém que não tem o senso de missão irá se perder totalmente com os cuidados deste mundo e será levado ao sabor das circunstâncias. Não estará disposto a buscar a Deus e a pagar o preço pra cumprir o seu chamado na Terra.

Assim como um atleta se abstém de muitos prazeres, a fim de obter vitória em sua prática esportiva, um discípulo de Cristo, que conhece o propósito de sua própria vida, consegue se abster de todas as distrações, de forma a não parar diante das dificuldades e tentações que encontra pela frente.


O MORRER É LUCRO

A certeza de que temos a vida eterna é fundamental neste processo de podermos viver uma vida de paz e alegria, em meio às circunstâncias adversas deste mundo. Por mais que tenhamos uma vida confortável e tranquila, tribulações chegarão até nós, principalmente se você estiver servindo a Deus com sinceridade e fervor.

O mesmo apóstolo Paulo, em sua segunda epístola a Timóteo, comenta sobre as tribulações que passou em Antioquia, Icônio e Listra, concluindo o seguinte:

E também todos os que piamente querem viver em Cristo Jesus padecerão perseguições. (2 Timóteo 3:12)

Portanto, não há nada que pague a certeza de termos a vida eterna, mesmo antes da ressurreição dos mortos.

Mas de ambos os lados estou em aperto, tendo desejo de partir, e estar com Cristo, porque isto é ainda muito melhor. (Filipenses 1:23)

Por maior que seja a tribulação que nos atinge, sabemos que temos a vida eterna no Filho de Deus, e podemos prosseguir com esta confiança: "Deus é o nosso ajudador"; e a morte dos santos é "preciosa aos olhos do Senhor" (Salmo 116:15).

Portanto, com os nossos nomes escritos nos Céus, prossigamos, com alegria e fervor, em nossa missão de evangelizar e discipular. Ponha os seus olhos (do coração) em Jesus, pois quer na vida quer na morte somos d’Ele!

Que a graça do Senhor seja com o teu espírito. Amém.

Pr. Wendell Costa


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domingo, 24 de outubro de 2021

Que o Nosso Amor Cresça em Percepção

 


E peço isto: que o vosso amor aumente mais e mais em ciência e em todo o conhecimento. Para que aproveis as coisas excelentes, para que sejais sinceros e sem escândalo algum até ao Dia de Cristo, cheios de frutos de justiça, que são por Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. (Filipenses 1:9-11)

O profissional que tem a habilidade de avaliar uma pedra preciosa é chamado de "gemólogo". A gemologia é a área que estuda os minerais gemas, mais conhecidos como pedras preciosas. É uma área muito técnica, onde uma pequena falha pode significar um grande prejuízo financeiro. Nas palavra do engº civil gemólogo André Leite "um pequeno erro pode resultar em prejuízo de milhões de dólares para quem compra ou para quem vende" [1].

Jesus usou a figura de um negociante de pedras preciosas, quando falou sobre o valor do Reino de Deus, quando o conhecemos:

Outrossim, o Reino dos céus é semelhante ao homem negociante que busca boas pérolas; e, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha e comprou-a. (Mateus 13:45,46)

Na parábola acima, o Senhor exalta a habilidade do negociante ao identificar uma pérola, cujo valor era tão grande que ele vende "tudo quanto tinha", a fim de adquiri-la. Veja como é importante termos o discernimento para separar o que realmente é valioso para nós!

No texto bíblico que inicia esta postagem, vemos o apóstolo Paulo orando pelos cristãos de Filipos, para que o amor deles aumentasse mais e mais em ciência e em todo o conhecimento. De fato, a palavra grega original traduzida como "conhecimento" é:

αἴσθησις (aísthesis) - percepção obtida através dos sentidos ou do intelecto

Veja como este mesmo verso foi traduzido na NVI (Nova Versão Internacional):

Esta é a minha oração: que o amor de vocês aumente cada vez mais em conhecimento e em toda a percepção... (Filipenses 1:9)

Paulo pedia por conhecimento (ciência) e, logo depois, pedia também por percepção. Ora, qual a diferença entre os dois itens?

Quando recebemos conhecimento, temos uma informação apenas, não necessariamente essa informação gera uma percepção em nós. É mais ou menos a diferença entre conhecimento e sabedoria: conhecimento se refere a uma informação, já a sabedoria significa a habilidade de usar essa informação em situações práticas da nossa vida, ou seja, a sabedoria é a evolução natural do conhecimento, ou ainda: o amadurecimento do conhecimento.

Mas por que o nosso amor precisa crescer em percepção?

A amor "agape", aqui mencionado por Paulo, refere-se à natureza divina de amor. É o mandamento fundamental transmitido a nós pelo próprio Cristo (João 13:34-35). Quando nos convertemos a Deus, por meio de Cristo, o amor entre os irmãos é o que provará que tal conversão foi verdadeira:

Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos os irmãos; quem não ama a seu irmão permanece na morte. (1 João 3:14)

O amor é a base de todo nosso relacionamento, tanto com Deus como com os irmãos em Cristo, portanto precisamos conhecer este amor. Apesar de termos nos tornado novas criaturas, após a nossa conversão, ainda precisamos fazer com que essa nova natureza – que é espiritual – se manifeste em nossos corpos mortais, pelo conhecimento da Palavra e pelo poder do Espírito Santo.

O passo inicial é, como já falamos, o conhecimento do amor de Deus. Quando não conhecemos como Deus é e como Ele opera, agiremos com base em conhecimento e emoções mundanas ou efêmeras, que não refletem a verdadeira natureza do Pai, pois foi assim que aprendemos no mundo.

Já a percepção é um segundo passo, onde nossos sentidos já estão preparados para agir com base no amor divino, não dependendo das circunstâncias do momento, para discernir a melhor forma de se comportar. Se deixarmos para agir em amor apenas no calor do momento, fatalmente falharemos.

Esse é o problema com os cristãos "carnais" (crianças em Cristo), pois seus sentidos (a percepção) ainda não foram suficientemente trabalhados, de forma a serem conduzidos pelo espírito recriado. Sua percepção das coisas ainda está de acordo com o mundo caído.

Mas o alimento sólido é para os adultos, os quais, pelo exercício constante, tornaram-se aptos para discernir tanto o bem quanto o mal. (Hebreus 5:14, NVI)

O "discernimento" é sinônimo da "percepção", dentro do contexto que estamos tratando aqui. Tanto um como outro significam uma capacidade de separar as coisas, entre bem e mal: o que é de Deus e o que é do mundo. Também nos permite separar entre algo "bom" e algo "excelente".


Voltando ao exemplo do gemólogo, citado no início do texto, para que a pessoa se torne um bom profissional dessa área, é necessário a fazer um curso de cerca de um ano (além de uma graduação específica), contudo o texto da nossa fonte [1] informa que não é esse curso que torna um profissional qualificado, para avaliar uma pedra preciosa, mas sim o quanto tal pessoa está atuando no mercado. Veja o que o eng. André Leite fala:

"O gemólogo tem que estar inserido no mercado, trabalhando com as pedras, tem que conhecer um pouco de lapidação, mineração, gemas sintéticas, estar sempre em exposições e plenários discutindo sobre as novas tecnologias, enfim saber o quê (sic) existe de novo no setor de síntese."

Observe que é a prática constante da avaliação de gemas, o estar inserido no mercado, a constante atualização dos conhecimentos, dentre outras coisas, que tornam um profissional bem qualificado para avaliar o valor de uma gema preciosa!

O livro de Provérbios faz uma curiosa, mas séria, advertência sobre a inversão de valores:

Como o que arma a funda com pedra preciosa, assim é aquele que concede honra ao tolo. (Provérbios 26:8)

Ora, alguém que usa um diamante como pedra, para lançar numa funda, é alguém que não sabe discernir o valor das coisas. Dá valor ao que não tem, e menospreza o que é valioso.

Assim também a percepção espiritual precisa ser obtida de Deus através da oração e prática do amor, para que possamos avaliar as coisas pertinentes ao Reino de Deus, e nos tornarmos frutíferos para Deus.

...para discernirem o que é melhor, a fim de serem puros e irrepreensíveis até o dia de Cristo, cheios do fruto da justiça, fruto que vem por meio de Jesus Cristo, para glória e louvor de Deus. (Filipenses 1:10,11, NVI)

À medida em que o nosso amor cresce em conhecimento e percepção, escolheremos agir e viver no melhor de Deus para nossas vidas. Podemos desfrutar de alegria, quando tudo ao nosso redor vive em tristeza. Podemos desfrutar de paz, quando o mundo vive em meio ao caos. Tudo isso porque conhecemos e percebemos a realidade do Reino de Deus dentro de nós, não nos conformando a nada inferior a realidade Celestial!

Assim, nossas vidas darão glória e louvor a Deus, por meio de Jesus Cristo.

Pr. Wendell Costa


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FONTES (além da Bíblia):

  1. Gemólogo fala da necessidade de conhecimento do mercado para lidar com pedras preciosas. Link: https://confea.org.br/gemologo-fala-da-necessidade-de-conhecimento-do-mercado-para-lidar-com-pedras-preciosas
  2. 5 diferenças entre pedra natural e pedra sintética. Link: https://alcidino.com.br/5-diferencas-entre-pedra-natural-e-pedra-sintetica/
  3. Dicionário de grego e latin Logeion (Universidade de Chicago). Link: https://logeion.uchicago.edu/

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quinta-feira, 11 de março de 2021

NÃO SE PRIVE DA GRAÇA DE DEUS


Através do Senhor Jesus Cristo, Deus derramou a Sua graça sobre os homens, pagando os nossos pecados e nos tornando Seus filhos. Tudo isso de forma gratuita, por meio da fé. Mas você sabia que você mesmo pode se privar da graça de Deus?

O escritor da epístola aos Hebreus traz um seríssimo alerta para a igreja do Senhor:

Tendo cuidado de que ninguém se prive da graça de Deus, e de que nenhuma raiz de amargura, brotando, vos perturbe, e por ela muitos se contaminem. (Hebreus 12:15)

Na tradução, onde foi usado "tendo cuidado", perdemos um pouco da ênfase original, onde o escritor usa o verbo episkopeo, que significa vistoriar, inspecionar cuidadosamente. Isso mostra a importância que se deve dar ao que ele explica em seguida, pois as consequências são graves.

Por mais que a salvação que Cristo trouxe venha mediante a fé, a nossa fé pode ser contaminada de diversas formas. Uma delas é deixar que sementes malignas brotem em nossos corações e comecem a produzir fruto. No caso do verso acima, ele fala sobre uma "raiz de amargura" que brota e pode contaminar muitos.

Muitas pessoas culpam a Deus quando as coisas não vão bem, quando a pessoa não é curada, quando coisas ruins acontecem, ao invés de examinarem os seus corações e aprenderem se não houve uma raiz maligna que brotou e bloqueou a graça de Deus em sua vida.

No livro de Tiago, ele também alerta para as consequências de sementes malignas que brotam dentro da comunidade cristã (sim, Tiago falava para cristãos!). Ele assim afirma:

Porque onde há inveja e espírito faccioso aí há perturbação e toda a obra perversa. (Tiago 3:16)

Observe que onde é desenvolvida inveja e espírito faccioso (divisões internas, disputas, rixas etc.) ali ocorre toda obra perversa. Aí inclui, por exemplo, doenças, acidentes, dentre outras obras diabólicas.

Nestes últimos tempos, nos mantermos puros da contaminação do mundo é um grande desafio para o cristão sincero, pois os ataques entre pessoas cristãs, até pastores, têm sido muito comum.

Todos se acham no direito de comentar, criticar e condenar tudo, mesmo que não tenham nada a ver com o assunto. Com isso, atraem para si juízo e se privam da graça de Deus em Jesus Cristo. Devemos deixar as críticas e todo julgamento para aqueles que estejam na posição necessária para isso. Nem todo assunto é necessário lançarmos nossa opinião, porque, geralmente, trará algum nível de julgamento de nossa parte, e aí quem julga também é julgado (Mateus 7:1).

Se alguém te criticou, procure entregar a Deus todo juízo. Claro que, se for alguma acusação grave, que constitua crime, e você puder se proteger, precisará fazê-lo, mas não é o caso na maioria das vezes.

Procuremos viver em paz com todos, na medida em que isso estiver em nós. Ande, também, em alegria e esteja sempre vistoriando o seu coração, para ver se não alguma raiz maligna que possa produzir fruto ruim, o qual poderá privar (separar) você da graça do Pai. Não vale a pena trocar a graça de Deus e ficar sob a condenação do mundo.

Que a paz de Cristo seja com o teu espírito. Amém.

Pr. Wendell Costa

quarta-feira, 1 de abril de 2020

Foi Deus Que Mandou o Coronavírus?


"O coronavírus é uma praga, um tormento enviado por Deus sobre quem Ele quiser. As doenças não acontecem por si mesmas, mas por mandamento ou decreto de Deus."
Com a chegada do coronavírus e a decretação da pandemia pela Organização Mundial da Saúde, muitos governos adotaram medidas de isolamento social, com o fim de combater a contaminação muito rápida, tentando evitar, desta maneira, a sobrecarga dos sistemas de saúde. Juntamente com a pandemia do vírus, veio também uma onda de explicações sobre as causas da praga.

Muitos cristãos entenderam que a pandemia do coronavírus é uma praga enviada por Deus e até mesmo conseguiram um versículo que daria base bíblica para o isolamento social, a fim de "escaparmos da ira de Deus":
"Vai, pois, povo meu, entra nos teus quartos, e fecha as tuas portas sobre ti; esconde-te só por um momento, até que passe a ira." (Isaías 26:20)
Mas será que temos base bíblica para dizer que esta pandemia foi enviada por Deus para exercer juízo sobre os moradores da Terra? Incluindo os Seus filhos? Vamos examinar a questão à luz da Bíblia!

Pandemias não são algo novo


Sempre que ocorrem tragédias de maior magnitude, tais como terremotos, maremotos, ataques terroristas ou pandemias, Deus acaba sendo culpado por isso. Por exemplo, teve até pastor (famoso) afirmando que o ataque às torres gêmeas do World Trade Center foi um ato de Deus,  não apenas "permitido", mas "projetado" por Ele. Os cristãos parecem realmente ignorar a verdadeira natureza de amor de Deus, além de demonstrarem desconhecer a atual dispensação na qual estamos: A Graça!

Na sequência, falarei como funciona a ira de Deus na Graça, mas analisando algumas informações sobre a pandemia, vemos que estão sendo afetados principalmente os idosos [1]. Estaria Deus com raiva dos idosos e derramando sobre eles a Sua ira? Ora, falando em "ira divina", sabemos que é mencionada na Bíblia, mas é motivada pelo pecado e não pela idade.

Além disso, basta fazermos uma rápida pesquisa na história e veremos que terríveis doenças já assolaram o mundo depois de Cristo. Se tais doenças são manifestação da ira de Deus, então nem seria algo novo. A peste negra (peste bubônica), que atingiu o planeta no século 14, causou a morte de um número estimado entre 75 e 200 milhões de pessoas [2].

A gripe espanhola (cujos sintomas são semelhantes ao Sars-CoV-2) assolou a humanidade em 1918, tendo, inclusive, matado o então presidente do Brasil, Rodrigues Alves, em 1919. O número estimado de mortes gira entre 40 a 50 milhões de pessoas [2].

Policiais de Seattle (EUA) vestindo máscaras cirúrgicas durante a pandemia de 1918 (Foto: Wikimedia Commons)

A ira de Deus explicada


A ira de Deus não é como a ira humana, esta é passional e variável, aquela é justa e invariável,  consistindo numa retribuição pelo pecado. Aqui na Terra, a ira de Deus é uma ação divina punitiva, antecipando o juízo que ocorrerá no final. Para os que conhecem Direito, podemos entender que a ira de Deus manifestada na Terra é semelhante a uma "decisão" que um juiz precisa tomar no decorrer do processo, mas ainda não é a "sentença final".

Entenda ainda que, para que o mal fosse refreado, Deus criou uma lei que tem a finalidade de restringir a maldade e promover o bem, nós a chamamos de Lei da Semeadura. Esta Lei diz que "tudo o que o homem semear, isso também ceifará" (Gálatas 6:7). Portanto, quando o homem colhe na Terra o resultado dos pecados, não é devido a uma decisão pontual divina, mas sim por causa de uma lei.

Uma lei não é uma opção pessoal, mas sim uma regra GERAL, ou seja, vale para todos.

Agora, vejamos a explicação dada pelo apóstolo Paulo que, pelo Espírito Santo, nos revela como opera a ira divina:
"Porque do céu se manifesta a ira de Deus sobre toda a impiedade e injustiça dos homens, que detêm a verdade em injustiça.
(...)
Por isso também Deus os entregou às concupiscências de seus corações, à imundícia, para desonrarem seus corpos entre si;
(...)
Por isso Deus os abandonou às paixões infames. Porque até as suas mulheres mudaram o uso natural, no contrário à natureza.
(...)
E, como eles não se importaram de ter conhecimento de Deus, assim Deus os entregou a um sentimento perverso, para fazerem coisas que não convêm;"
(Romanos 1:18, 24, 26, 28)
Lendo os versos anteriores, observamos que a ira divina consiste simplesmente em abandonar os homens aos seus próprios desejos pervertidos. Assim fazendo, os homens serão destruídos pelos seus próprios pecados, cometidos a partir de seus desejos infames. O diabo se alimenta disso e obterá acesso ao homem para dominar sobre ele, trazendo roubo, morte e destruição (João 10:10).

Ao entregar-se ao pecado, o homem sofrerá consequências de tais atos, e estas consequências serão manifestadas a partir da Terra, não por ter chegado o momento do julgamento final, mas por causa da Lei da Semeadura.

Todos os que estão sem Cristo estão sob a ira



"Aquele que crê no Filho tem a vida eterna; mas aquele que não crê no Filho não verá a vida, mas a ira de Deus sobre ele permanece." (João 3:36)
Todos os homens se tornaram pecadores (Romanos 3:23) e ficaram sob a ira de Deus, mas Cristo veio ao mundo para nos salvar dessa situação. Através de Sua morte e ressurreição, temos a possibilidade de sermos justificados, tendo os pecados removidos e, assim, herdar a vida eterna.

Contudo, este livramento não é automático, pois é necessário que a pessoa creia de todo o coração no Filho de Deus e em Seu sacrifício por nós. Uma vez salvo, você terá à sua disposição o poder de Deus, que Ele liberou através do evangelho.

Precisamos nos lembrar que TODOS NÓS já estivemos sob a ira de Deus, mas isso não significa que Ele nos destruiu, enviando pragas ou terremotos para nos matar...
"Entre os quais todos nós também antes andávamos nos desejos da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos; e éramos por natureza filhos da ira, como os outros também." (Efésios 2:3)
Deus esperou pacientemente cada um de nós, ao longo dos anos, a fim de demonstrar Seu amor e graça para conosco, nos revelando Seu perdão em Cristo. Ocorre que, como já vimos, o homem pecou e declarou independência do Reino de Deus, assim sendo, o próprio homem retirou Deus de sua vida e o Senhor deixou que o homem fizesse sua escolha, embora tenha alertado das consequências dela.

Não há vida verdadeira fora de Deus.

No que diz respeito à ira futura, chegará o tempo do juízo final sobre todo o pecado. Veja bem, o juízo é sobre o pecado e, consequentemente, sobre toda criatura que adota a natureza pecaminosa. Assim, quando nos ligamos a Cristo, nossos pecados são aniquilados n'Ele, e somos livres da ira contra o pecado, tanto agora como no futuro.
"...e esperar dos céus a seu Filho, a quem ressuscitou dos mortos, a saber, Jesus, que nos livra da ira futura." (1 Tessalonicenses 1:10)


A ira sobre Israel


O povo de Israel tinha uma aliança onde eles seriam abençoados, caso observassem os mandamentos da Lei, ou cairiam sob maldição, se não guardassem a Lei. A própria Lei de Moisés afirmava que os mandamentos tinham caráter perpétuo.
"Portanto, guardai isto por estatuto para vós e para vossos filhos, para sempre." (Êxodo 12:24)
Como sabemos, a nação de Israel como um todo não aceitou Jesus Cristo como o seu Messias e, por isso, caiu nas maldições previstas na Lei de Moisés, sendo espalhados pelas nações e sofrendo a ira justa de Deus, conforme tudo quanto estava escrito.

Além de não receberem o Salvador - o qual foi enviado inicialmente para eles -, eles foram os primeiros perseguidores da Igreja. Assim, Deus os entregou à destruição através do Império Romano, durante a invasão de Jerusalém, evento citado por Paulo no versículo seguinte:
"E nos impedem de pregar aos gentios as palavras da salvação, a fim de encherem sempre a medida de seus pecados; mas a ira de Deus caiu sobre eles até ao fim." (1 Tessalonicenses 2:16)

As doenças vêm de Deus?


Geralmente as pessoas que dizem que o coronavírus (e demais catástrofes) vêm de Deus são pessoas que creem que Deus é quem coloca doenças sobre as pessoas. Mas a Palavra mostra que a opressão advinda das enfermidades são obra de satanás e não de Deus:
"...como Deus ungiu a Jesus de Nazaré com o Espírito Santo e com virtude; o qual andou fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo, porque Deus era com ele." (Atos 10:38)
Note que todas as pessoas que Jesus curou estavam sendo oprimidas pelo diabo e não por Deus. Ora, caso as doenças fossem uma obra de Deus, não adiantaria orarmos contra a vontade de Deus! Durante a vigência da Lei de Moisés, Deus deixou claro que se o povo obedecesse, Ele os livraria das enfermidades, mas se não O ouvissem, sofreriam todo tipo de doenças (Deuteronômio 28). Isso mostra que doença é maldição e não bênção, e de Deus só vêm boas dádivas e dons perfeitos (Tiago 1:17).

A obra de Jesus consistiu em justamente levar sobre Si mesmo os pecados e as doenças e nos libertar da escravidão, nos tornando justos aos olhos de Deus pela fé e não por obras. Assim, podemos desfrutar dos benefícios da justificação e não suportamos o peso de ter que prover a salvação para nós mesmos (Efésios 2:8).

Jesus andou por toda parte fazendo o bem e curando a todos (os que criam) e não colocando doenças sobre as pessoas. Jesus é a exata imagem de Deus! Se você quer saber quem Deus é, olhe para Cristo!

O assunto Cura Divina é mais extenso e não daria para escrever sobre tudo isso aqui nesta postagem. Então, caso você se interesse, coloco aqui o link de uma série de estudos meus sobre este tema (12 vídeos com um total de 8 horas de ministração):

Série sobre CURA DIVINA (YouTube)

A ira e os sofrimentos terrenos


Podemos resumir a questão da ira divina em três categorias:

  1. IRA GERAL - Sob a qual todos nós já estivemos e que consiste em Deus nos abandonar às nossas próprias vontades, não intervindo em nossas vidas para nos guiar e livrar.
  2. IRA ESPECÍFICA - Decisão punitiva antecipada com a finalidade de barrar o mal e evitar uma destruição maior, por exemplo, a ira sobre Israel, que perseguiu a igreja logo em seu início.
  3. IRA FUTURA - Juízo final sobre o pecado em toda a Criação.

Observando, por fim, que a ira vai se agravando na medida em que os homens rejeitam o conhecimento de Deus e retém a verdade das pessoas, preferindo a injustiça (Romanos 1:18-32). Creio que estamos chegando a uma situação mundial que demonstra essa rejeição a Deus. As consequências são graves.

Através da salvação provida por Deus em Cristo, mediante a fé, somos salvos da ira contra o pecado, tanto a presente como a futura. Contudo, você deve entender que vivemos em um mundo caído, onde a vontade de Deus NÃO é estabelecida (ao contrário do que dizem alguns, que tudo o que acontece aqui é porque "Deus quer", o que é uma grande mentira). Assim, devido à queda do homem, mesmo nós que estamos em Cristo sofremos as consequências do pecado e do fato de que a maior parte da humanidade rejeitou a salvação.

Esta situação só será plenamente resolvida quando do juízo final, onde haverão novos Céus e nova Terra, nos quais habitará a justiça (2 Pedro 3:13).



RESPONDENDO ÀS PERGUNTAS


Nesta parte, vou tentar responder, resumidamente, algumas das perguntas que me foram feitas com relação à pandemia do coronavírus.

1) O coronavírus é a "mão de Deus" pesando?
Não. As doenças são consequências gerais do pecado, elas atingem todo o planeta e a humanidade em geral. Nós como cristãos temos direito às promessas de saúde, por estarmos em Cristo, mas é necessário edificar a nossa fé nessa área, a fim de não sofrermos junto com o resto do mundo. A ira de Deus não está sobre o Corpo de Cristo - a Igreja -, pois se assim fosse, o sacrifício de Cristo não teria sido suficiente. A obra de Cristo (que é a exata Imagem de Deus) foi no sentido de curar e não de enviar doenças.

2) A passagem em Isaías 26:20 é uma profecia sobre o coronavírus?
Se lermos todo o contexto ao redor do versículo, veremos que fala da volta de Jesus e do juízo final. Ainda não estamos nesse momento, portanto a passagem não poderia se referir ao coronavírus. Além disso, se fosse uma profecia para hoje, todos os cristãos deveriam se trancar nos seus aposentos até que a propagação do vírus passasse, e isso não é possível. Muitos profissionais cristãos (médicos, enfermeiros, policiais, caminhoneiros, agricultores, supermercado, dentre outros) não podem simplesmente se trancar em casa e parar de trabalhar, senão haverá fome, mortandade, assaltos etc. Eu chamaria até mesmo de irresponsabilidade usar tal passagem bíblica para essa situação atual.

3) Devemos interceder ou repreender a praga?
Devemos interceder sim por todos, principalmente pelos governos, para que Deus dê a eles sabedoria para lidar com a pandemia. Também devemos orar para que o Senhor mostre um remédio/vacina eficaz para o combate à virose. Aqueles que creem na saúde divina podem (e devem) orar por livramento e cura, por si mesmo e pelos seus, não temos autoridade para repreender a doença sobre todo o mundo, porque cada pessoa precisa crer. Aos que não creem, estarão desprotegidos, pois sem fé é impossível agradar a Deus (Hebreus 11:6). Mas recomendo que assistam a série sobre cura e comecem a edificar a fé nessa área.

4) O coronavírus é consequência do pecado?
Sim. Vivemos em um mundo caído, e a terra produzirá doenças, pois está sob maldição (Gênesis 3:17). Isso passou a ocorrer após o pecado de Adão, onde a morte entrou. Quanto mais as pessoas pecam mais dão lugar ao diabo e às catástrofes naturais. O cristão precisa ser guiado pela Palavra e pelo Espírito Santo para poder escapar de tais coisas.

A propósito, a citação abaixo (que também está no início deste texto) é dos terroristas do Estado Islâmico e não de um cristão, muito embora já ouvi até pastores dizerem coisas semelhantes a essas. Infelizmente, muitos cristãos têm a mesma visão do nosso Deus e Pai que os terroristas têm do seu deus.

"O coronavírus é uma praga, um tormento enviado por Deus sobre quem Ele quiser. As doenças não acontecem por si mesmas, mas por mandamento ou decreto de Deus." (Al-Naba, revista do Estado Islâmico) [3]

Que a graça do Senhor Jesus Cristo seja com você.

Pr. Wendell Costa


REFERÊNCIAS


[1] Coronavírus: 10% dos mortos no Brasil têm menos de 60 anos
Taxa é maior do que na China, apesar de a letalidade ser comprovadamente maior entre idosos
Jornal O Globo: Constança Tatsch, Elisa Martins e Rafael Garcia, 01/04/2020. LINK: https://oglobo.globo.com/sociedade/coronavirus/coronavirus-10-dos-mortos-no-brasil-tem-menos-de-60-anos-24342985

[2] Conheça as 5 maiores pandemias da história
O coronavírus não é o primeiro causador de pandemias mundiais. Relembre outras doenças que mudaram os rumos da história da humanidade
Revista Galileu: LETÍCIA RODRIGUES. 29 MAR 2020. LINK: https://revistagalileu.globo.com/Ciencia/Saude/noticia/2020/03/conheca-5-maiores-pandemias-da-historia.html

[3] Estado Islâmico recomenda que terroristas não entrem na Europa para evitar coronavírus.
Revista publicada pelo grupo pede que seguidores 'não entrem na terra da epidemia'
Jornal O Globo, 15/03/2020. LINK: https://oglobo.globo.com/mundo/estado-islamico-recomenda-que-terroristas-nao-entrem-na-europa-para-evitar-coronavirus-24306476

segunda-feira, 9 de março de 2020

Posso Tomar a Ceia em Pecado?


Nos meus anos de pastoreio e liderança já me deparei com essa pergunta diversas vezes, feita de diversas formas:
  • Pastor, posso tomar Ceia sem ser batizado nas águas?
  • Posso tomar Ceia sentindo raiva de alguém?
  • Posso tomar a Ceia se não for casado no civil?
  • Pastor, eu bebo chimarrão e tereré, posso tomar Ceia?
  • Etc.
Acredite-me: já me fizeram todas essas perguntas... Se você não tem dúvidas sobre as respostas, saiba que muitos cristãos têm! Antes de responder às perguntas acima, vamos entender o que é a Ceia do Senhor, de acordo com as Escrituras.

O Que é a Ceia


Pouco antes de ser levado preso para ser crucificado, durante a celebração da Páscoa, junto com os discípulos, Jesus estabeleceu a Ceia como um memorial que deveria ser praticado pelos Seus seguidores. Vemos esta passagem no evangelho de Lucas:
"E, tomando o pão, e havendo dado graças, partiu-o, e deu-lho, dizendo: Isto é o meu corpo, que por vós é dado; fazei isto em memória de mim." (Lucas 22:19)
O apóstolo Paulo explica o sentido da Ceia, em 1 Coríntios 11. Na ocasião, Paulo escrevia à igreja de Corinto, a fim de "ajustar" o comportamento desregrado que ocorria naquela igreja, durante o momento da Ceia. Dentre outras orientações, Paulo fala sobre o propósito daquele momento:
"Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; fazei isto, todas as vezes que beberdes, em memória de mim. Porque todas as vezes que comerdes este pão e beberdes este cálice anunciais a morte do Senhor, até que venha." (1 Coríntios 11:25,26)
Assim, vemos que a Ceia do Senhor foi dada por Jesus em substituição à Páscoa judaica, que era a festa que tinha o propósito de lembrar ao povo de Israel da libertação da escravidão do Egito. Quando Deus falou a Moisés para a criação da Páscoa, Ele ordenou que esta festa serviria para lembrar da grande libertação que Ele daria ao povo.
"E este dia vos será por memória, e celebrá-lo-eis por festa ao Senhor; nas vossas gerações o celebrareis por estatuto perpétuo." (Êxodo 12:14)
Assim como a nação de Israel deveria estar sempre se lembrando daquele evento, a partir do qual eles foram libertos da escravidão e viraram povo independente e consagrado ao Senhor, assim também Jesus nos dá um memorial, que deve servir para lembrarmos do sacrifício de Cristo por nossos pecados, evento este que nos libertou da escravidão de satanás, nos dando a cidadania do Reino de Deus.
"Porque Cristo, nossa páscoa, foi sacrificado por nós." (1 Coríntios 5:7)


Os Elementos da Ceia


A Ceia do Senhor traz dois alimentos, que são o pão e o vinho (este, geralmente, substituído por suco de uva). Jesus (e Paulo) não usa o termo "vinho", mas sim "cálice", por isso não vejo problema em se usar suco de uva no lugar do vinho, muito embora, originalmente, me parece que eles realmente usavam vinho, já que Paulo critica a igreja de Corinto pelo fato de que pessoas se embriagavam durante a Ceia (1 Cor 11:21).

Vamos examinar o texto que mostra o sentido dos elementos da Ceia:
"Porque eu recebi do Senhor o que também vos ensinei: que o Senhor Jesus, na noite em que foi traído, tomou o pão; E, tendo dado graças, o partiu e disse: Tomai, comei; isto é o meu corpo que é partido por vós; fazei isto em memória de mim.
Semelhantemente também, depois de cear, tomou o cálice, dizendo: Este cálice é o novo testamento no meu sangue; (...)"
(1 Coríntios 11:23-25)

O PÃO

O pão representa o corpo de Cristo, que foi "partido" por nós. Isto quer dizer que o Corpo de Cristo, que estava contido em apenas um homem - Jesus - foi dividido, para se tornar a Igreja. O Espírito de Cristo, agora, passa a habitar dentro de cada cristão, formando um Corpo espiritual. Pouco depois de falar sobre a Ceia, Paulo fala: "Ora, vós sois o corpo de Cristo, e seus membros em particular." (1 Coríntios 12:27). Assim sendo, o pão partido representa que fazemos parte deste Corpo, pelo fato de termos aceitado a salvação trazida por Jesus.

O CÁLICE

Um cálice, metaforicamente, era uma situação que alguém poderia passar, boa ou má. O termo foi usado extensamente nas Escrituras, geralmente significando algo árduo de se passar, muitas vezes usado como representação do juízo divino. Caso você queira ver alguns versículos nesse sentido, coloquei alguns abaixo:
  • representando juízo divino: Isaías 51:17, Ezequiel 23:33, Apocalipse 14:10;16:19
  • representando salvação: Salmos 16:5; 116:13
No caso do cálice de Cristo, ele representa o sangue que Jesus derramou para pagar por nossos pecados e, de fato, todo o martírio de Jesus, o qual culminou com a Sua crucificação, tomando o nosso lugar. Assim como o povo de Israel sacrificou milhares de cordeiros, inaugurando a Páscoa Judaica, assim Jesus foi sacrificado por toda a humanidade. Jesus recebeu sobre Si a ira de Deus (sobre o pecado), daí o uso do termo "cálice" para representar o sofrimento do Senhor Jesus.
"Dizendo: Pai, se queres, passa de mim este cálice; todavia não se faça a minha vontade, mas a tua." (Lucas 22:42)


Uma figura ou representação


Os elementos da Ceia REPRESENTAM coisas, a saber: o pão, representando o Corpo de Cristo, que foi partido e hoje é a Igreja; o cálice, representando o sofrimento de Cristo, que derrama Seu sangue pelos nossos pecados.

Isto é muito importante e precisamos entender bem, para não invertermos as coisas! Os elementos pão e suco NÃO são mais importantes que as coisas que eles representam!

O Corpo de Cristo é muito mais importante que o pedaço de pão que você come na Ceia. A obra redentora de Jesus é muito mais importante que o cálice de suco que você toma! Aliás, estes elementos não teriam sentido especial algum se não fosse pelo que representam.

Infelizmente, pessoas carnais tendem a focar nas coisas terrenas e não nas espirituais. A falsa religião acaba invertendo as coisas de Deus e troca as prioridades de lugar. Não é de se admirar que a Ceia é uma das coisas que tem seus valores invertidos. Vamos entender...

Se alguém está em Cristo é uma nova criatura. Espiritualmente, ela foi "batizada em Cristo" e agora é parte do Seu Corpo, chamado de "Igreja". Quando a pessoa pratica a Ceia do Senhor, ela apenas está trazendo à sua memória este fato. Novamente repito: a Ceia é uma representação, não a coisa real.

Se Deus recebeu alguém como filho, e não vai rejeitá-lo por qualquer motivo, então não deveria tal pessoa deixar de cear por qualquer motivo. Embora este pequeno estudo não possa ser usado para esclarecer todas as verdades que dizem respeito à salvação, precisamos entender alguns pontos básicos.

Perdemos a salvação quando pecamos?


Este é um assunto onde existem muitas correntes doutrinárias, e não vejo como eu poderia esclarecer tudo nesta postagem. Pretendo dar uma visão geral sobre isso, correndo o risco de ser criticado em um ou outro ponto, mas creio que vale a pena correr o risco, a fim de ajudar aqueles que, de forma sincera, querem agradar a Deus, mas estão se condenando e deixando de cear, devido às regras de homens e/ou condenação vinda da sua própria consciência.

Um grupo cristão prega que uma pessoa, ao realmente se converter a Cristo, será salva e não pode perder a salvação, pelo fato dela ser uma decisão unicamente de Deus. Assim sendo, seus pecados jamais poderiam levar você a perder a sua salvação.

Um outro lado prega que qualquer pecado fará com que você perca o seu status de justo perante Deus, sendo necessário que você confesse cada novo pecado cometido, caso contrário, se você morrer, irá para o inferno.

Afinal, qual a visão correta?

Bem, de acordo com a Bíblia, a salvação não é algo que venha de nós mesmos, ela é dada como um dom:
"Porque pela graça sois salvos, por meio da fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus.
Não vem das obras, para que ninguém se glorie;"
(Efésios 2:8,9)
Ora, no grego, de forma semelhante ao inglês, o verbo "ser" é o mesmo que "estar", assim sendo, o versículo acima também poderia ser traduzido como "pela graça estais salvos", pois o tempo verbal está no presente. Não há nada no Novo Testamento que indique que somos salvos pela graça, mas depois nos mantemos salvos através das obras!

A salvação vem pela fé em Jesus Cristo, e nós permanecemos salvos também pela fé, não por obras.

Contudo, SE realmente fomos salvos, as obras de justiça começarão a ser praticadas, como consequência da mudança que aconteceu em nosso espírito. Jesus trata dessa questão quando diz que a árvore se conhece por seus frutos (Mateus 7:17-18; 12:33, dentre outros). Ou seja, se você nasceu de Deus, seu espírito é uma nova criatura, e você começará a andar em santidade como uma CONSEQUÊNCIA de sua salvação, não como causa.

Assim, entendo que mesmo quando você não anda de forma perfeita e comete pecados não intencionais, poderá participar da Ceia normalmente, pois estará em plena comunhão com Cristo. Como a Ceia é tão somente um memorial, caso o cristão precisasse ser perfeito para participar dela, praticamente nenhum poderia participar.

Os que impõem esse tipo de regra, proibindo as pessoas de participar da Ceia do Senhor por causa de alguns tipos de falha ou pecado, também pecam, mas participam da Ceia assim mesmo. Com isso, uma hipocrisia é vivida dentro das igrejas.




O que ocorre quando pecamos?


Vou tentar, de forma resumida, falar um pouco sobre a questão do pecado para alguém que foi salvo. É importantíssimo enfatizar que, SE alguém é salvo, tal pessoa será uma nova criatura em seu espírito (2 Coríntios 5:17), conforme já dito. O novo nascimento ao qual Jesus se referiu em João 3 é um renascimento espiritual e não material.

Quando somos salvos, já recebemos um novo espírito da parte de Deus, o qual é essa nova criatura. Este é um espírito novo, recém criado e que traz a imagem de Deus. Cristo está neste novo espírito (1 Coríntios 6:17) e, por isso, ele não pode pecar:
"Qualquer que é nascido de Deus não comete pecado; porque a sua semente permanece nele; e não pode pecar, porque é nascido de Deus." (1 João 3:9)
Assim, quando cometemos algum pecado, este pecado não atinge o nosso novo espírito, pois ele foi selado pelo Espírito Santo (Efésios 1:13), a fim de que não percamos a salvação devido a sermos falhos ainda. Esta limitação será retirada quando da ressurreição dos nossos corpos, na segunda vinda de Cristo. Ali receberemos novos corpos glorificados, semelhantes ao que Jesus possui hoje, e não poderemos mais pecar.

Podemos continuar no pecado já que somos salvos pela graça?


Esta pergunta pode parecer tola, mas não é! O apóstolo Paulo precisa respondê-la duas vezes no livro de Romanos, capítulo 6, versos 1 e 15. Como não é o escopo desta postagem, não entrarei em detalhes aqui, mas o pecado tem sim efeitos nocivos para o cristão e é totalmente desencorajado na Nova Aliança. Em resumo, podemos dizer que a Graça não foi dada por Deus para que pudéssemos continuar vivendo para o pecado e ir para o Céu. A graça foi dada para que pudéssemos viver para Deus e escapar do pecado.

O pecado endurece o nosso coração para Deus (Hebreus 3:13) e dá lugar ao diabo (Efésios 4:27). Portanto, devemos buscar a santidade sempre, a fim de que possamos ser frutíferos para o Senhor e desfrutarmos da realidade do Seu Reino na Terra.

Além disso, ao termos consciência do pecado, ela (a consciência) nos acusará e isso trará condenação sobre nós, permitindo que satanás nos atinja no corpo e na alma. Por isso, quando nossa consciência nos acusa, devemos tratar dela através da confissão (reconhecimento) de nossos pecados, para fechar este espaço que o inimigo obtém em nossas vidas.

Também é extremamente necessário crescermos no conhecimento de Deus, para entendermos a Sua vontade e não ficarmos nos acusando por coisas que não são, de per si, pecaminosas.



Examinando-se a Si Mesmo


Considerando tudo o que já vimos, podemos, agora, entender as orientações de Deus nos versos seguintes:
"Examine-se, pois, o homem a si mesmo, e assim coma deste pão e beba deste cálice.
Porque o que come e bebe indignamente, come e bebe para sua própria condenação, não discernindo o corpo do Senhor."
(1 Coríntios 11:28,29)
Quando nossa consciência está contaminada pelo pecado, trazemos condenação sobre nós mesmos. Assim, é fundamental termos uma atitude de auto exame, a fim de confessarmos os nossos pecados. Esta não deve ser uma atitude apenas no momento da Ceia, mas durante toda a nossa vida, embora que a Ceia é um momento que nos convida a isso, devido a estarmos trazendo à memória o preço que foi pago pelos nossos pecados e o Corpo do qual fazemos parte.

Aqui encontramos um dos grandes problemas da Ceia: as pessoas simplesmente deixam de celebrar a Ceia com medo de serem condenadas, contudo não tratam a questão do pecado em si. O problema não é a Ceia, mas sim o pecado e a consciência acusando.

Se você está em comunhão com Cristo não faz sentido deixar de participar da Ceia, como se esta fosse mais importante do que a própria salvação! Se você estiver vivendo em pecado, com ou sem participar da Ceia, isso vai afetar a sua vida, endurecendo seu coração para Deus e dando lugar ao diabo. Deixar de cear não vai mudar isso.



Conclusão


Assim sendo, considerando que a Ceia é uma representação de uma realidade espiritual, não há sentido em se deixar de cear se você estiver em comunhão espiritual com Cristo. E caso esteja sendo acusado de pecado, deve confessar e deixar o referido pecado. Deixar de cear não vai impedir o diabo de roubar, matar e destruir na sua vida.

Agora vou responder as perguntas iniciais, com base em tudo o que foi falado anteriormente:

Posso tomar Ceia sem ser batizado nas águas? Sim, mas se sua igreja proíbe isso, então respeite as regras da sua igreja.

Posso tomar Ceia sentindo raiva de alguém? Sim, mas aja em fé e perdoe a pessoa, ainda que os sentimentos perdurem por algum tempo, o que é perfeitamente normal. Você também não precisa conviver com pessoas que te fazem mal.

Posso tomar a Ceia se não for casado no civil? Sim, mas por isso ser motivo de escândalo, você deve procurar resolver esta situação. Caso sua igreja também não concorde, você deve respeitar e não participar da cerimônia da Ceia, mas não por causa de Deus.

Pastor, eu bebo chimarrão e tereré, posso tomar Ceia? Sim, porque o que contamina o homem não é o que entra no homem, mas o que sai do homem. Embora eu não goste de chimarrão (achei horrível quando provei), sei que há gosto pra tudo neste mundo...

E, por fim...

Posso Tomar a Ceia em Pecado? Não! Porque se você estiver com consciência de pecado, isso vai trazer condenação a você! Se você entende que está indigno diante de Deus, essa situação precisa ser resolvida com urgência, pois terá consequências negativas em sua vida. Seu problema não é a Ceia, mas sim as consequências de abrir a porta para o inimigo e deixar de desfrutar da realidade do Reino de Deus.

Que a paz do Senhor seja com o teu espírito. Amém!

Pr. Wendell Costa

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Um dos maiores desafios da Igreja do Senhor é alcançar unidade na fé. Esta unidade é essencial para que o povo de Deus seja bem sucedido no ...